Workshop Corpo Criativo – a pares

 

Organizei este testemunho sobre a minha participação no Workshop Corpo Criativo – a pares, em quatro eixos: expectativas; fluindo; memórias e pés.

 

Expectativas

O fato de não ter um par, por si só, propiciou uma reflexão: por que não tenho par? Será que alguém seria meu par? Que critérios escolheria para convidar alguém para ser meu par? O que seria um par para mim? O que é um par?

 

Quando a Sofia perguntou-me sobre a possibilidade do par ser um desconhecido, aceitei sem hesitar, por resolver a questão do par e pelo desafio de estar em contato com o outro, de forma próxima.

 

Provavelmente, pelo fato de estar envolvida com a Biblioteca Humana, como processo desmistificador de preconceitos, estereótipos e comportamentos discriminatórios, entendi esta experiência, salvaguardando as idiossincrasias, como uma forma de compreender os mecanismos que norteiam o relacionamento entre seres humanos.

 

 

Fluindo

Os exercícios fluíram de forma natural e espontânea, permitindo o contato progressivo com a Cristina (meu par que agora já tinha um nome, rosto e corpo). Aponto como o mais instigante, aquele no qual de olhos fechados tínhamos que achar nosso par, entre tantos, sem o recurso do tato com as mãos, convocando os demais sentidos para o efeito, em especial o olfato, e a intuição (considero a intuição como um sentido).

 

No meu caso, percebi que passei várias vezes pelo meu par, e por outros, onde o odor foi entendido como um sinalizador. Fixei-o na memória e associei-o à Cristina e recordo-me com nitidez que ao passar por uma outra pessoa, e sentir o cheiro, aperceber-me de que não estava no caminho certo.

 

É interessante constatar que os corpos são energia, e que o calor, com a proximidade de dois corpos é inequívoca. Como um imã e sem juízo de valor, de boa ou má energia, somos, num primeiro momento, atraídos para o espaço ocupado por um corpo. No seu contrário, a ausência permite-nos a sensação de vazio (constatação referida por várias pessoas do grupo).

 

Parei ao lado da Cristina, intuitivamente, mas para certificar-me confesso que abri ligeiramente os olhos e vi, de relance, a camiseta azul, que tinha vestida. Interessante constatar a minha necessidade em fixar alguns traços da pessoa, que acabara de conhecer, como recursos, uma espécie de cartografia imediata para a minha orientação.

 

A camiseta azul, por exemplo, foi um ponto de referência, para o exercício de procurar pelo par na multidão. Acredito, que para pares com relacionamento pré-estabelecido, o exercício possa ter gerado um sentimento de angústia ou até perda que posteriormente foi colmatado com o abraço apertado ao número três.

 

É necessária uma plasticidade para estar em diálogo com o outro que acabamos de ver. Curioso pensar que após o workshop de “Corpo Criativo”, eu conheci um outro ser humano (Cristina) e suponho que o outro tenha me conhecido, de uma maneira original, ou até mesmo única.

 

O exercício que exigiu mais de mim, e por isso pressuponho que tenha vindo praticamente no final da sessão, foi o de segredarmos ao ouvido do outro. O que o exercício implicou? Uma proximidade absoluta, no que diz respeito aos corpos, uma entrega, disponibilidade, generosidade e o acessar à uma sabedoria ancestral de que afinal, somos feitos, todos, do mesmo material – viemos do mesmo barro, ou da mesma costela, se preferirem.

 

Por que isso é importante?

 

Por que confirma, que não obstante todas as diferenças, há uma linha que nos liga e que poderá ser acessada quando e onde quisermos.

 

Ressalto, contudo, que é possível afirmar que as pessoas que participam no “Corpo Criativo” já estarão disponíveis para o encontro com o outro, num enquadramento de dança contemporânea.

 

O exercício da proteção foi relevador na medida em que nos foi proposto a doação: relembro a arma imaginária (uma espécie de espingarda) levada pela Cristina, num movimento de sentinela e que se transformou, no final, num passe energético.

 

Memórias

Observar o exercício de caminhar lado a lado foi muito enriquecedor. Perceber que estar numa relação implica, mesmo de olhos fechados, esperar pelo outro, ajustar o passo para acompanhar o outro, é generoso.

 

A memória mais significativa da “Oficina do Corpo Criativo”, foi sem dúvida, a observação da potência dos exercícios nos pares, os laços afetivos que foram trabalhados, reforçados.

Por outro lado, suscitou em mim a auscultação da potência de que é necessário arriscar, estar predisposto para viver em relação.

 

Pés

Como nota final, refiro a coincidência dos pés. Para efeitos de enquadramento, os meus pés são muito sensíveis e padecem de uma doença (linfedema congénito) que os torna inchados constantemente.

 

São pés com uma especificidade. Não serão normais? Normais sim, talvez diferentes e coincidentemente os pés da Cristina, e isso afirmado por ela, também são diferentes.

 

Afinal foi um par de pés!

Viviane Almeida